sábado, 12 de novembro de 2016

O moço garboso

Há dois dias atrás eu estava toda pomposa no ponto de ônibus esperando a minha irmã com um chuvisco poético caindo de fundo quando apareceu um homem lindo, todo engomado, de social, tão garboso e bonito que até a minha miopia enxergou de longe.
Ele estava segurando um buquê de flores, olhou na minha direção e veio num passo firme, passando pelas várias pessoas que também estavam no ponto. Super olho no olho. Eu até estava tentando me lembrar se o conhecia de algum lugar.
Pensei em todas as coisas incríveis que ele podia dizer ou fazer quando chegasse até mim. E eu sabia que ele chegaria até mim. Das coisas incríveis que ele poderia dizer, pensei inclusive em "quer casar comigo?" - e eu não ia conseguir negar.
Se ele quisesse a senha do meu cartão e até o final do meu rímel favorito que estava acabando e eu ando ridicando para mim mesma para durar mais, eu dava. Não acho que ele fosse enriquecer muito com o que a senha do meu cartão dá acesso e os cílios dele estavam perfeitos já sem o rímel, mas era esse o nível de compartilhamento que eu fiquei instantaneamente disposta.
Aí ele chegou perto, parou, exalou seu perfume igualmente garboso e disse (com aquele sorriso muito fofo):
"Licença? Você saberia dizer como faço para chegar ao metrô da linha azul?"

Fim.
Sim.
Foi só isso dessa vez.

Lição do dia: nem todos os dias acontecem coisas "doidas", ilógicas, mágicas e atípicas. Às vezes as pessoas só querem saber como chegar na linha azul do metrô. Às vezes as coisas são normais e muito lógicas. Principalmente quando a gente quer que elas sejam doidas!

Escrito em abril  de 2015

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Ó, os meus sapatos

Esse é o diálogo com um senhor que se considera louco. Não sei o nome ou a idade, a conversa foi de tal forma que nem me lembrei de perguntar, mas não acho que tivesse muito mais que 50.
E isso foi o que aconteceu ontem em um intervalo de 15 minutos ou menos:

Caminhada no silêncio, muito silêncio, mais silêncio, até que...

- Boa noite, moça.

- Boa noite.

- Ôôôôô moça! Não atravessa a rua olhando o celular não, você pode cair. Pode até um carro “vupt”, te levar.

- O senhor tem razão. Muito obrigada!

- Tenho é? Ainda tenho? Porque eu to louco. LOOOUCO (deu uma bela risada).

- Oi?

- Eu to louco. Loucão, sabe? Bem louco. Louco de ir no psiquiatra. De deitar e ficar falando "dos problema", porque to cheio. To fazendo coisa de gente louca. Você quer uma coisa e faz outra, aí você não quer mais, aí você quer de novo. Loucão. Eu paro e “NOSSA, O QUE QUE EU FIZ?”. Essas coisas de louco, falar sozinho, falar com estranho, to falando aqui com você. (Depois de um segundo de silêncio) Ô moça, você não fica com medo não?

- Depende, você fará algo que eu deva ter?

- To aqui falando com você, gente estranha. To louco, to falando até com os meus sapatos!

Foi quando olhei para os pés dele e ele estava de chinelo e pensei “Tadinho, deve estar louco mesmo” e respondi:

- Se for só isso, por enquanto não...

Eu sorri e já estava seguindo reto, mas ele nem me ouviu e continuou:

- ...E os sapatos respondem. Ó, fala com ele! (ele sorriu e levantou os pés). Viu? Mas as pessoas não. Sabe quando todo mundo te olha e acha que você tá louco? É ruim. Sabe? As pessoas acham que você é loucão e aí você acha também porque você tá mesmo louco.

Droga, ele mexeu comigo quando disse que as pessoas não respondem. Eu queria seguir, tava com frio, no meio de uma rua desconhecida à noite, realmente eu estava falando com um desconhecido... Mas eu odiaria ser a pessoa que não responde. Então eu continuei ali e respondi:

- Sim. Todos os meus amigos acham. Mas o senhor sempre vai ser louco pra alguém. Ser “normal” é fazer o que as pessoas esperam, e as pessoas esperam coisas diferentes, né? Não conheço gente feliz que seja normal. Não é ruim, não. Ruim mesmo é passar frio, o senhor tá com frio? Tá com fome? Senhor sabe que tem abrigo, né? Pra noite assim é bom.

- To não. To quentinho, ó, de sapato.

Olhei o chinelo de novo...aquilo me deixou um pouco confusa sobre o que fazer, mas aí ele continuou:

- Gosto “desses lugar”, não. Lá só tem gente louca. Aqui tem eu, meu sapato, você, o céu. To com “uns papelão”, com roupa. Só to louco mesmo, né? A gente tá normal e “pum”, tamo louco (ele gargalhou olhando pro céu). Aaah, mas aí eu penso, será que eu não era louco antes também?

- Não sei se o senhor é louco. Talvez só esteja carente, quando ficamos carente fazemos coisas bem bobas pra chamar atenção ou pra não se sentir sozinho. Às vezes o senhor só quer alguém pra conversar, né? Que responde. A solidão às vezes deixa a gente meio assim...senhor já viu “Náufrago”?

- O que?

- O filme “Náufrago”, do Tom Hanks, que ele fica sozinho na ilha lá.

- Quem tá sozinho?

- Ahn (é, demorou pra cair a minha ficha que ele não viu o filme e não sabia quem era Tom Hanks). Nada, desculpa! Mas é...então, o que eu queria dizer é que talvez o senhor não precisa de um psiquiatra, só precisa de um amigo, né?


- Eu tenho ó, os meus sapatos!

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Escrito em maio de 2016

quinta-feira, 14 de abril de 2016

O Olhar

Essa é a história de Sirino, um senhor de 89 anos que parece ter 75.
Muito mais lúcido do que eu em algumas sextas-feiras, tranquilo, faz caminhada pelo bairro pela manhã, mais caminhada do que eu devo fazer em um mês por vontade própria. Ele assovia muito bem, mas isso eu consegui acompanhar, e enxerga melhor do que eu com a minha miopia não cuidada.

Mas não vim falar como ele anda melhor do que eu mesmo tendo mais de 3x a minha idade. Vim contar a história que conheci quando fui explorar um pouco mais dessa cidadezinha que visitei. Já era o meu terceiro dia lá e eu ainda não sabia o caminho para um restaurante que me saciasse com prazer e bom preço, então saí à procura de um e pela terceira vez, pouco mais a frente da calçada do hotel que eu estava, dava para ouvir um "bom dia" e ver um sorriso saindo da boca de um Sr. sentado em uma cadeira de praia tomando um sol no asfalto, observando o cimento dos prédios em volta.

Todo dia que eu saía ele dava os cumprimentos do dia, fosse a hora que fosse, e eu acenava e sorria de volta. Não sei porque eu não verbalizava o "bom dia", não é que eu achasse que ele é surdo nem nada, mas mesmo com essa pequena rotina, eu ainda era sempre surpreendida - e essa era a minha reação automática.

Achei um restaurante, não era ainda um que me agradasse muito, mas só descobri depois de almoçar. No caminho da volta eu ouvi um "boa tarde", eu tinha um tempo naquele dia e não tinha nada no quarto do hotel que fosse muito interessante de se fazer, então resolvi sentar ali na calçada depois de responder cordialmente pela primeira vez.

Sirino então se apresentou e perguntou "quem é a senhorita?".

E quando surgiu a vaga sensação de nos conhecermos só porque sabíamos o nome um do outro ele perguntou o que eu eu fazia na cidade.

"Exatamente agora estou procurando algo para fazer, mas vim por causa do meu trabalho."

"Eu também estava procurando algo para fazer e eu também vim por causa do meu trabalho, de quando eu trabalhava, né? E aí fiquei pra sempre."

Quando ele disse isso eu pensei "Deus que me livre!" Mas sorri e deixei que ele continuasse a história...

"Eu trabalhava na roça, vendia verdura. Tinha uma bicicleta vermelha."

"Então esse é o segredo do Sr. ainda tá assim tão bem, de pé!"

"...mas era pra eu ter sido gente grande lá no Rio. Como é engraçado isso né? As coisas como elas são..." Sirino não só não escutou meu comentário como, apesar de estar olhando pra mim, já estava divagando sozinho.

"Minha família é carioca e meus irmãos tão tudo lá com vista pros morros e pro Cristo." Então ele deu um sorriso largo e eu percebi que ele ia começar a contar algo que eu não perguntei, olhei para o relógio e ainda tinha tempo, mas já estava com medo da história ser grande. Estava me perguntando porque raios havia parado e se devia aproveitar o silêncio para me levantar. Aí já não sei se ele leu isso na minha cara, mas em dois segundos ele segurou meu braço e me perguntou "Você conhece os Loureiros?"

"Não."

"A família hoje é quase dona daqui, da cidade, tem uma fábrica de arroz que distribui pro Brasil todo. Mas antes eles eram da roça também, Quindinho, meu primo, trabalhava com eles."

"Hm...que legal." Eu não estava sendo sincera, mas ele ainda segurava meu braço.

"Quando eu tinha assim sua idade, uns 18, 19 anos (eu na verdade tenho 25), eu vim visitar meus tios que moravam aqui, ajudar na lavoura, aí meu primo me convidou pra ir na festa de fim de ano dos Loureiros. Era coisa simples, mas bonito. Aí tinha umas meninas, né?" Aqui ele soltou uma gargalhada, antes ele parecia mesmo velhinho, mas então ele mudou o tom e começou a sorrir mais, foi aí que eu chutei que ele devia ter uns 75 anos, mas fui pior do que ele me dando 19.

"Ai, as meninas! Elas eram mais novinhas, uns 16, 17...a que eu gostei parecia ter 15, tava de trança e de vestido vermelho, aí perguntei pro meu primo, 'Quem é aquela ali, a mais bonita?' e ele falou 'É a Silvia, todo mundo gosta dela.'" Então ele gargalhou de novo.

"Lembrando assim é engraçado. Ela tava cheia de amigas em rodinha, no cantinho, comendo frango de garfo e a gente com as mãos todas cheias de gordura. Metade do gosto do frango tá em comer com as mãos, viu? Comer de garfo perde uns 'pedação', mas meninas tinham que comer de garfo porque senão ficavam mal faladas."

"A gente se olhou, cheguei perto e fui conversar. Mas ela não tava muito de papo. Era quietinha, sorria um monte e dançou comigo. Parecia que conversamos por horas, mas não deve ter durado mais que 20 minutos. Vi ela mais umas 3x, mas nunca conversamos muito, era mais de cruzar assim na rua. Aí, voltei pro Rio. Só fui vir pra cá um bocado de tempo depois, já tava mais velho, barbudo..." ele coçou a barba que ele tinha, talvez ele só deixasse a barba por causa dessa história.

"Tinha tido o casamento da prima dela, com o filho dos Loureiros, e olha, arrependimento não mata! Até digo que você vive mais pra ficar pensando nisso."

E ele estava pensando nisso.

"Deu uns dois anos e só pensava nela. Não tinha mulher bonita que me tirasse ela da cabeça. Fui espuleta um tempão, mas decidi que ia vir pra cá de novo. Falei pro meu tio se queria ajuda, e aí vim. Quando voltei uns anos depois todo mundo só falava do casamento da Silvia. Já cheguei logo depois do noivado, aí decidi que ia atrás dela antes dela casar, né? Pois quando cheguei, assim que deu, Quindinho me passou o endereço e eu fui lá falar com ela, mas a família dela não deixou. Um desconhecido falar com uma noiva é pior que comer sem garfo aqui nessa cidade!" E ele ria de novo.

"Aí só me restou chegar no casamento pouco antes dela entrar na igreja, ela tava de véu na cara. Berrei pra ela que a amava, que ela não podia casar não. Não sem saber que eu a amava. Todo mundo parou pra me olhar, o noivo veio ver o que era que berravam lá fora na porta, mas a mulher não era a cara da prima de véu? Aí saiu a Silvia de vestido vermelho, que nem quando a conheci, junto com a multidão e foi quando vi que a que tava casando, a verdadeira Silvia era a prima dela que tava comendo de garfo com ela. A minha menina era a Ana, Ana Reis Loureiro. A que havia casado uns anos antes. Silvia era a prima que o Quindinho achava mais bonita! Ah, se o Quindinho tivesse bom gosto eu ia ter parado o casamento certo..." Ele continuava gargalhando, mas agora chorava também. Meu relógio dizia que ele estava mais de duas horas contando isso com todas suas risadas e pausas. E que isso dizia que eu estava atrasada. Era hora de ir. Eu não sabia o que dizer, eu continuava com meu sorriso estático, já meio amarelado, e pensando em uma forma de levantar sem ser rude.

"Você tem que ir. Vai sim. Mas ó, vê se quando você encontrar o amor da sua vida vê se você pergunta o nome direito! Não vai me perder o amor por bobeira."

Era a minha chance de ir, mas aí eu perguntei "E o que aconteceu depois?"

E resumindo: "Ah, os Loureiros demitiram o Quindinho. Meu amor virou mulher do Prefeito. Ele até morreu uns anos depois e a gente se viu já com quase 70, ela gostava de mim sim, sempre gostou também. Ela me contou. Me disse que se eu tivesse vindo antes ela não tinha feito o que fez, mas que agora ficaria mal falada, ela, uma senhora viúva, ex-primeira dama, saindo com outro homem. Mas a gente teve nossa história, mas não podia contar pra ninguém. É ruim, você quer que as pessoa saibam que você tá com aquela pessoa incrível, você quer. Quando você gosta mesmo você quer, mas você não quer que ela fique mal falada."

"Nossa, tadinho do Quindinho também..." Não sabia muito mais o que comentar e comecei a me levantar...

"A verdade menina, é que a gente se apaixona antes de beijar, antes de conhecer, antes de saber o que a outra pessoa gosta. Eu não acredito nisso não que leva tempo. Convivi com muita mulher bonita e inteligente, mas não amei como amei aquela menina com alguns segundos de olhar. Quem é esperto pega na hora, mas às vezes a gente demora pra perceber e faz tudo errado. Mas a gente se apaixona mesmo na hora que a gente cruza o olhar e você já sabe que o beijo, o abraço, a conversa vai ser boa! Porque não importa o que a outra pessoa falar, você já gosta dela. Ela pode até fazer tudo errado, comer frango com a mão, trocar as palavras ou nem falar nada, mas sabe? Não sei se hoje em dia vocês fazem isso, as vezes vocês nem se olham. Você pode até se apaixonar 100x, mas vai ter que cruzar o olho 100x também. Já ouvi muita história de amor e é bem nessa hora que você olha pra ela e ela te olha de volta, e às vezes até sorri, que você se apaixona! É...Eu tava lá na festa só procurando algo pra fazer nessa cidade sem nada e achei o amor da minha vida, não é engraçado?"

Ele riu.


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Escrito em Janeiro de 2015