segunda-feira, 19 de junho de 2017

SÃO BORJA, pt II

SÃO BORJA, pt II
Como Descobrir Que A Praga Continua Em Você

(São Borja, pt I aqui)

Situação: Trabalho.

Cenário: Aduana da Fronteira entre Brasil e Argentina em São Borja (parece uma rodoviária, tem um prédio central e ao lado duas partes cobertas, mas abertas, onde entram e saem os carros passando pela inspeção para entrar ou sair do Brasil/Argentina).

Perfil: Eu era supervisora de uma equipe de pesquisa para o Ministério do Turismo (sintam a pompa novamente, porque daqui a pouco ela some...novamente).

Época: Verão.

Acontecimento: Então é assim...

Em 2012 fui trabalhar em São Borja e relatei um super esborrachamento que tive. Caí de costas na quina da calçada na Fronteira durante um temporal, fiquei com as costas travada e lama no ouvido. Além disso perdi o sapato.

Mas em 2015 a Praga de São Borja continua...

Então eu voltei pra cá pelo menos trabalho e há uns dias atrás eu pensei "como está quente no quarto, vou abrir esta janela (pesada, velha e gigante) do hotel". Agora eu sei que não foi esperto, mas na hora não parecia algo que eu seria incapaz de conseguir fazer - no entanto era: quando eu estava quase conseguindo abrir (ela estava emperrada), ela fechou em cima do meu dedinho, que está roxo, verde, azul, inchado e torto, além de muito dolorido. Fui no hospital e me chamaram de Karine Naram (será que eu falo o meu próprio nome errado? Porque aqui nas cidades da Fronteira do Rio Grande do Sul nunca acertam a pronúncia), marcaram que eu nasci em 2012, arrumaram a data porque claramente não pareço tão jovem assim a ponto de ser confundida com uma recém-nascida e fizeram o curativo.

Então ontem eu dei uma tropeçadinha durante o trabalho e fiz a piada "Só falta eu não moer o dedo na janela, mas quebrá-lo caindo em cima dele! Tem que ser muito lerda, né? ha-ha-ha".

A graça estava na certeza de que isso não aconteceria. Porque de fato seria muita lerdeza.

Mas pouco depois, eu cai sozinha no chão. 

Sozinha. 

E em cima do dedo. 

Não tinha vento, não tinha chuva, não tinha paralelepípedo, calçada, barro, chão molhado, não tinha nenhuma desculpa...só o asfalto que me ralou toda. Voltei ao hospital  e as pessoas me perguntavam se caí de moto, de bicicleta, se caí no barranco, fui empurrada ou se caí do cavalo (isso parece comum lá).

"Não, eu caí sozinha"

"Tem certeza?"

"Tenho."

Na recepção a moça que estava fazendo minha ficha começou a rir porque minha residência tinha sido marcada como o próprio hospital (pela outra moça que marcou que nasci em 2012) e soltou seu bom humor de alguém não ralado e com o dedo intacto:

"Pelo menos já tá em casa, né? Tem certeza que tu não foi atropelada? ha-ha-ha".      

Fiz os curativos, descobri que o enfermeiro conhecia Lorena (a cidade onde cresci), que ele era meio sádico ("Olha aqui eu tirando as pedrinhas no seu machucado! Quer ver?! Tem um monte!") e disse que já viu uma pessoa que foi pisoteada por um cavalo que se machucou menos e ficou abismado como consegui fazer isso sozinha (pensando depois, pelas perguntas e o rumo que ele levou a conversa, acho que ele estava preocupado se eu havia sofrido violência doméstica ou algo assim - o que sempre é uma preocupação válida e bacana).

Perguntaram se eu era parente da Carol Nakamura (e fizeram essa piada umas 10x, pq São Borja não tem muitos orientais e não conseguiam pronunciar Karen Nomura sem hesitar em alguma sílaba) e, enquanto eu esperava para ser atendida pelo médico, a moça da ficha que no fundo é uma querida (como dizem aqui) cruzou meu caminho e finalizou esta saga com sua visão positiva da situação:

"[...] Alguém lá em cima gosta muito de ti, tu conseguiu se esfolar toda mas sua roupa tá inteirinha! Como isso, né? É sorte!"

Geralmente eu abraçaria esta visão, mas como estou muito dolorida me permiti pensar:

Aham.

Deve gostar pra caramba.

Muita sorte.



Considerações posteriores

Obs.: No hotel eu vi que a calça rasgou.

             
Considerações finais

Beijos pra todos e não caiam ou deixem a janela fechar em seus dedos, pode ser chato, dolorido e inconveniente.



Escrito em janeiro de 2015

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