terça-feira, 7 de março de 2017

O Prédio

Ontem, na chegada no Rio de Janeiro, à caminho do hostel.
(Era "ontem" quando isto foi escrito em 2011)

Eu
"Moço, o que é aquilo ali?"

Moço do táxi
" Prédio."

Eu
"Ah sim, mas de que?"

Moço do táxi
"Olha, acho que de concreto."



Eu acho que era o Teatro Municipal do Rio, e assim considerei :)

(Adendo de 2017 mas que poderia ter sido escrito dois dias depois deste diálogo: Sim, era o Teatro Municipal do Rio de Janeiro!)


Escrito em outubro de 2011

sexta-feira, 3 de março de 2017

A amante do Parque Dom Pedro II

Era 5 de outubro de 2011 quando notei como a cidade de São Paulo estava definitivamente dominando a minha mente e alterando as minhas referências históricas. Aqui está um trecho deste momento:

[...]

Eu
"Ah, tudo bem! Agora Inês é morta..."

A outra pessoa
"Que Inês?"

Eu
"Como assim que Inês? Inês de Castro!"

A outra pessoa
"...Inês de Castro? Eu, ahn, não lembro...acho que sei quem é, mas não tenho certeza. Ela é a que..."

Eu
"...A que era amante do Parque Dom Pedro e virou rainha depois de morta! Lembra?"

A outra pessoa
"Amante do Parque Dom Pedro II?"

Eu
"Isso!! Mas é o primeiro, não o segundo!"

Silêncio.
Troca de olhares estranhos.
Mais silêncio.
Reflexão.
Constrangimento e expressão:

Eu
"AAAAH!!! PARQUE! Desculpa! É só Dom Pedro!"


[Nota: Parque Dom Pedro II é um parque localizado no centro de São Paulo, entre os bairros Sé e Brás, onde há o Terminal de ônibus Parque Dom Pedro II - que eu utilizava com certa frequência nesta época.]


Escrito em outubro de 2011


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Comprar um apartamento ou um celular?

Saindo da padaria aqui do Morumbi, num dia com um humor extremamente péssimo, fui abordada por uma mulher:

- Você não deseja conhecer os nossos novos apartamentos na Rua Blablabla?

- Muito obrigada, mas não tenho interesse.

A moça entrou na minha frente e olhou nos fundos dos meus olhos:

- Isso é porque você não viu os nossos apartamentos! Dá uma olhadinha aqui no nosso panfleto!

Ela me entregou um papel que sei lá porque eu segurei, mas preferi ser honesta porque não havia rumo que aquela conversa pudesse levar que fosse produtivo:

- Muito obrigada mesmo, mas eu estou até em dúvida se compro um celular, definitivamente não estou considerando comprar um apartamento. [Adendo 1: Haviam roubado o meu celular (um dia antes, inclusive) e esse era um dos fatores do meu péssimo humor.]

- Mas quem disse que é pra vender? Agora é só pra dar uma olhadiiiiinha! As vendas só começam no final de março! [Adendo 2: Ela disse isso animada e sorridente, como se realmente tivesse dito algo que solucionasse todos os problemas do mundo.]

- Ah sim, claro! Mas infelizmente tem 4 quartos, acho que eu realmente não preciso de tudo isso, senão até deixava de comprar o celular e comprava o apartamento. [Adendo 3: Eu falei rindo porque não queria ser muito grossa, mas achei que era perceptível que eu estava sendo irônica, não?]

- Nããão. - ela respondeu

E continuou:

- Olha aqui! Temos com 3 ou 2 quartos também! Se você tiver um marido cada um pode ficar com um quarto, já que hoje em dia os casais valorizam mais a privacidade, né? Ou fazer de closet ou quarto pra visita! [Adendo 4: Este é o meu mundo: mais provável eu ter um marido que não queira dormir comigo do que eu ter filhos, por exemplo.]

- Ah que pena, eu não tenho um marido, mas se eu tivesse ele com certeza não iria querer dividir quarto comigo! [Adendo 5: Aqui eu não fui irônica, infelizmente.]

- Ai, amiga, você é hilária! Mas então você aproveita com suas visitas essa piscina com espreguiçadeira sob a piscina pra pegar uma cor com o pé na água ou pode malhar em uma das duas academias!

- Duas academias?

- É que o condomínio é enooorme e a academia é o point. E, olha, se você tá sem marido, é lá mesmo que você pode achar um!

- Hmm, me pegou! Mas se ele for do prédio é ruim que no final teremos 2 apartamentos com 2 quartos sobrando, né? Mas pode deixar que se eu casar até março ou se eu comprar muita roupa eu dou uma olhada lá!

Sorri. Não sei sou muito ruim com ironias ou se ela estava desesperada, mas ela continuou animada:

- Isso mesmo! Então estamos te esperando lá!

Quando ela me acenou e eu atravessei a rua confesso que sorri, e dessa vez não foi por ironia. Relembrei o diálogo e andei rindo (aquelas risadas que você dá com uma lufada de ar saindo do nariz mas sem abrir a boca e mostrar os dentes), e nem lembrei do mal humor. Eu estava errada, a conversa foi produtiva!

[Adendo 6: Dois dias depois, saindo da mesma padaria, outra moça segurando os panfletos do mesmo prédio falou "Leva seus pais lá pra conhecer! Temos os melhores colégios do bairro bem pertinho."  - Dessa vez eu só passei reto, mas concluí que o pré requisito para contratação deste serviço é julgar pela cara e tentar desenvolver um diálogo desprovido de noção. Além de eu ter notado a diferença que faz estar um dia com salto (e um marido que não quer dormir comigo) e no outro estar de tênis (e ter pais preocupados com a minha educação nos melhores colégios do bairro)!]

Escrito em fevereiro de 2017


sábado, 12 de novembro de 2016

O moço garboso

Há dois dias atrás eu estava toda pomposa no ponto de ônibus esperando a minha irmã com um chuvisco poético caindo de fundo quando apareceu um homem lindo, todo engomado, de social, tão garboso e bonito que até a minha miopia enxergou de longe.
Ele estava segurando um buquê de flores, olhou na minha direção e veio num passo firme, passando pelas várias pessoas que também estavam no ponto. Super olho no olho. Eu até estava tentando me lembrar se o conhecia de algum lugar.
Pensei em todas as coisas incríveis que ele podia dizer ou fazer quando chegasse até mim. E eu sabia que ele chegaria até mim. Das coisas incríveis que ele poderia dizer, pensei inclusive em "quer casar comigo?" - e eu não ia conseguir negar.
Se ele quisesse a senha do meu cartão e até o final do meu rímel favorito que estava acabando e eu ando ridicando para mim mesma para durar mais, eu dava. Não acho que ele fosse enriquecer muito com o que a senha do meu cartão dá acesso e os cílios dele estavam perfeitos já sem o rímel, mas era esse o nível de compartilhamento que eu fiquei instantaneamente disposta.
Aí ele chegou perto, parou, exalou seu perfume igualmente garboso e disse (com aquele sorriso muito fofo):
"Licença? Você saberia dizer como faço para chegar ao metrô da linha azul?"

Fim.
Sim.
Foi só isso dessa vez.

Lição do dia: nem todos os dias acontecem coisas "doidas", ilógicas, mágicas e atípicas. Às vezes as pessoas só querem saber como chegar na linha azul do metrô. Às vezes as coisas são normais e muito lógicas. Principalmente quando a gente quer que elas sejam doidas!

Escrito em abril  de 2015

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Ó, os meus sapatos

Esse é o diálogo com um senhor que se considera louco. Não sei o nome ou a idade, a conversa foi de tal forma que nem me lembrei de perguntar, mas não acho que tivesse muito mais que 50.
E isso foi o que aconteceu ontem em um intervalo de 15 minutos ou menos:

Caminhada no silêncio, muito silêncio, mais silêncio, até que...

- Boa noite, moça.

- Boa noite.

- Ôôôôô moça! Não atravessa a rua olhando o celular não, você pode cair. Pode até um carro “vupt”, te levar.

- O senhor tem razão. Muito obrigada!

- Tenho é? Ainda tenho? Porque eu to louco. LOOOUCO (deu uma bela risada).

- Oi?

- Eu to louco. Loucão, sabe? Bem louco. Louco de ir no psiquiatra. De deitar e ficar falando "dos problema", porque to cheio. To fazendo coisa de gente louca. Você quer uma coisa e faz outra, aí você não quer mais, aí você quer de novo. Loucão. Eu paro e “NOSSA, O QUE QUE EU FIZ?”. Essas coisas de louco, falar sozinho, falar com estranho, to falando aqui com você. (Depois de um segundo de silêncio) Ô moça, você não fica com medo não?

- Depende, você fará algo que eu deva ter?

- To aqui falando com você, gente estranha. To louco, to falando até com os meus sapatos!

Foi quando olhei para os pés dele e ele estava de chinelo e pensei “Tadinho, deve estar louco mesmo” e respondi:

- Se for só isso, por enquanto não...

Eu sorri e já estava seguindo reto, mas ele nem me ouviu e continuou:

- ...E os sapatos respondem. Ó, fala com ele! (ele sorriu e levantou os pés). Viu? Mas as pessoas não. Sabe quando todo mundo te olha e acha que você tá louco? É ruim. Sabe? As pessoas acham que você é loucão e aí você acha também porque você tá mesmo louco.

Droga, ele mexeu comigo quando disse que as pessoas não respondem. Eu queria seguir, tava com frio, no meio de uma rua desconhecida à noite, realmente eu estava falando com um desconhecido... Mas eu odiaria ser a pessoa que não responde. Então eu continuei ali e respondi:

- Sim. Todos os meus amigos acham. Mas o senhor sempre vai ser louco pra alguém. Ser “normal” é fazer o que as pessoas esperam, e as pessoas esperam coisas diferentes, né? Não conheço gente feliz que seja normal. Não é ruim, não. Ruim mesmo é passar frio, o senhor tá com frio? Tá com fome? Senhor sabe que tem abrigo, né? Pra noite assim é bom.

- To não. To quentinho, ó, de sapato.

Olhei o chinelo de novo...aquilo me deixou um pouco confusa sobre o que fazer, mas aí ele continuou:

- Gosto “desses lugar”, não. Lá só tem gente louca. Aqui tem eu, meu sapato, você, o céu. To com “uns papelão”, com roupa. Só to louco mesmo, né? A gente tá normal e “pum”, tamo louco (ele gargalhou olhando pro céu). Aaah, mas aí eu penso, será que eu não era louco antes também?

- Não sei se o senhor é louco. Talvez só esteja carente, quando ficamos carente fazemos coisas bem bobas pra chamar atenção ou pra não se sentir sozinho. Às vezes o senhor só quer alguém pra conversar, né? Que responde. A solidão às vezes deixa a gente meio assim...senhor já viu “Náufrago”?

- O que?

- O filme “Náufrago”, do Tom Hanks, que ele fica sozinho na ilha lá.

- Quem tá sozinho?

- Ahn (é, demorou pra cair a minha ficha que ele não viu o filme e não sabia quem era Tom Hanks). Nada, desculpa! Mas é...então, o que eu queria dizer é que talvez o senhor não precisa de um psiquiatra, só precisa de um amigo, né?


- Eu tenho ó, os meus sapatos!

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Escrito em maio de 2016